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A molécula descoberta num coração de vaca
Episódio em francês. O texto integral pode ser lido abaixo em português.

O texto do episódio
Bem-vindo à Herba Barona, loja de suplementos alimentares em Paris. Cada episódio conta a história de um produto que se conhece mal, e você sai daqui com uma coisa para reter. Hoje: a coenzima Q dez.
1957, Universidade do Wisconsin
Mil novecentos e cinquenta e sete. Universidade do Wisconsin, Estados Unidos. Um investigador chamado Frederick Crane passa os dias debruçado sobre corações de vaca.
Não é uma mania de talhante. Crane estuda a energia, e sabe que o coração é o órgão que mais energia consome — um músculo que bate sem pausa, do nascimento ao último suspiro. Se existe uma molécula-chave da energia, é ali que ela se esconde. E um dia, nos seus extratos de mitocôndrias de coração de vaca, isola pequenos cristais amarelo-alaranjados. Uma substância desconhecida.
Ubiquinona, presente em todo o lado
Dar-lhe-ão um nome de sábio: ubiquinona. De «ubíqua» — presente em todo o lado. Porque depressa se perceberá: esta molécula está em todas as suas células, sem exceção. Você conhece-a pelo seu nome artístico: coenzima Q dez.
O barqueiro da central
Então, para que serve esta molécula? Lembre-se da cascata dos pequenos moinhos — essa cadeia, no interior das mitocôndrias, onde a energia dos alimentos desce patamar a patamar para se tornar ATP, a moeda energética do corpo. Entre os moinhos, é preciso que alguém transporte os eletrões. Esse transportador é ela. A coenzima Q dez é o barqueiro da central: recolhe os eletrões de um lado, entrega-os do outro, e recomeça, milhares de vezes por segundo. Sem barqueiro, a cascata pára — por maiores que sejam os moinhos.
E não é o seu único talento. Entre duas entregas, a coenzima Q dez faz também de bombeiro: é um antioxidante, um daqueles que apagam as famosas faíscas — os radicais livres — que uma central em funcionamento produz inevitavelmente.

Uma produção que declina
O mais interessante é que o seu corpo sabe fabricá-la sozinho. Nunca precisou de a ir buscar ao prato: produ-la, célula a célula, conforme as suas necessidades. Mas há um «mas». Essa produção interna segue uma curva que ninguém gosta de olhar: atinge o pico por volta dos vinte anos… e depois declina, tranquilamente, década após década. O coração de uma pessoa idosa contém nitidamente menos coenzima Q dez do que o de um jovem adulto. A central continua lá. O barqueiro é que se faz mais raro.
Ubiquinona ou ubiquinol
Foi isso que tornou esta molécula tão popular no mundo dos suplementos alimentares: existe em versão dita ubiquinona, a forma histórica, e em versão ubiquinol, a sua forma dita «reduzida», já pronta a usar. Dois rostos da mesma molécula, a dos cristais alaranjados do Wisconsin.
Setenta anos quase dia a dia depois da sua descoberta, a coenzima Q dez é provavelmente a mais célebre das moléculas mitocondriais. Nada mau, para uma substância desencantada num coração de vaca.
Bem se vê que as grandes histórias de energia raramente começam onde as esperamos.
Este foi um episódio do podcast Herba Barona, gravado em Paris. Até breve.